ENGENHO NOSSA SENHORA DA AJUDA

O Engenho Nossa Senhora d’Ajuda foi fundado em 1535 por Jerônimo de Albuquerque, cunhado de Duarte Coelho Pereira, primeiro donatário da Capitania de Pernambuco.

Situado nas proximidades de Olinda, já então reconhecida como uma próspera vila, o engenho representou a primeira fábrica de açúcar em Pernambuco, tendo sido a segunda em terras brasileiras e que deu origem a vocação da indústria açucareira de Pernambuco.   1 e 2

Desnecessário dizer da importância histórica dessa propriedade que ocupava grande extensão de terra, obtida por Jerônimo de Albuquerque através de seu cunhado – Duarte Coelho Pereira, como doação donatarial a título de sesmaria.

Reforçando a importância do engenho Nossa Senhora d’Ajuda, informamos que segundo o historiador Borges da Fonseca, que se baseou no seu testamento, Jerônimo de Albuquerque faleceu no mês de dezembro de 1584, sendo sepultado na capela do seu engenho. Esclareço que além de um grande guerreiro, responsável por varias vitórias contra índios hostis à ocupação portuguesa, ele foi um grande patriarca pernambucano, deixando enorme descendência que hoje se encontra presente em todo Brasil.

Além disto, era este engenho bangüê, situado a três quilômetros do cais do Varadouro, subindo o rio Beberibe, o responsável pela água potável usada para o abastecimento de Olinda.

FORNO DA CAL

Originalmente o engenho Nossa Senhora d’Ajuda, também conhecido com Engenho Velho, ocupava todas as terras do delta do Beberibe (região dos pântanos de Olinda), fazendo divisa com a cidade de Recife no bairro de Santo Amaro e ia até onde hoje existe a cidade de Paulista.

A propriedade quando foi adquirida por Henry Gibson em 1859, por foro perpétuo concedido pelo Município de Olinda, já era denominada “Forno da Cal” e não produzia mais açúcar, encontrando-se decadente, invadida por posseiros e apesar de ter sofrido vários desmembramentos, foi ainda em suas terras que surgiu o bairro de Peixinhos e a Vila Cidade Tabajara (Ouro Preto) - ambos em Olinda, e o bairro de Beberibe em Recife, entre outros. E ainda, foi na área do antigo Forno da Cal que se construiu a Escola de Aprendizes de Marinheiros, o Matadouro de Peixinhos, o Shopping Tacaruna e o Centro de Convenções de Recife.


Nas antigas terras do engenho de Jerônimo de Albuquerque, a indústria da cal e uma olaria já estavam sendo exploradas antes mesmo do Henry Gibson ser o proprietário. Na época, com o crescimento de Recife, essas atividades eram tão ou mais lucrativas que a produção do açúcar. O material calcário era extraído em formato de pedra, derretido em forno para obter a cal e então misturado com o barro, conseguindo-se assim uma massa que substituía o cimento. Era muito usado também como tinta, para caiar as paredes, hábito então considerado higiênico. Henry mesmo tendo dado continuidade a estas atividades motivado por sua lucratividade, fez ressuscitar a vocação açucareira da propriedade.

Transcrevo na íntegra o seguinte artigo da Revista de Geografia:

Forno da Cal (Revista de Geografia. Recife: UFPE – DCG/NAPA, v. 25, n. 1, jan/abr. 2008 104
ZONA RURAL DE OLINDA (PE): ASPECTOS DA ATIVIDADE AGROPECUÁRIA NO FINAL DO SÉCULO XX
por Roberto Silva de SOUZA
Ainda no Brasil Império, outro momento que permeou a história do Forno da Cal, em
Olinda, revela que, em 1859, o inglês Henry Gibson, convenceu a Câmara de Olinda que iria realizar, às suas custas, alguns projetos onerosos para a cidade se ela lhe aforasse “toda a área pantanosa e alagada; – todos os terrenos adjacentes (terras de arvoredos – segundo Foral) que estivessem nas posses ilegais de terceiros, e finalmente, todos os terrenos aforados cujos foreiros houvessem incidido em comisso.” (DIÁRIO DE PERNAMBUCO,1972a, p.5).

A Câmara de Olinda atendendo ao apelo do inglês, lhe aforou as terras pretendidas, em 27/10/1859. Porém ele, não cumprindo com sua promessa, fez a exploração das terras de arvoredo e ainda expulsou centenas de lavradores a título precário, bem como os que incidiram em comisso. Segundo o documento, o inglês enriqueceu por meio dos rendimentos auferidos com as madeiras, por arrendamento das terras para cultura e pastagens, pela produção do açúcar – realizada no engenho que construiu, e pelos negócios da cal. (DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 1972a).

No Jornal do Recife de 10 de fevereiro de 1866, temos a seguinte notícia: "Dito a Camara Municipal de Olinda - Declarando-me a Camara Municipal de Olinda na informação dada em 28 de janeiro próximo findo, sobre o requerimento dos herdeiros de Henry Gibson, foreiro do pantano pertencente a essa Camara, que o dito foreiro só cumprio uma das condições, com que lhe fora cedido o aforamento daquelle pantano , recolhendo aos cofres da municipalidade a importância de dous annos de fôro adiantado, não tendo porém satisfeito todas as outras condições, por isso não só tem deixado de pagar annualmente o foro estipulado, como também não fez dessecar o pantano, nem correr agua o mais perto possível desta cidade, dentro do prazo de 06 annos, que já se findaram a 27 de Outubro ultimo, incorrendo por taes faltas na multa de que pedem ser relevado, e em commisso, quanto ao não pagamento do fôro, resolvi indeferir o predito requerimento, e recommendo a essa Camara, que faça arrecadar a citada multa, e effective a pena de commisso, além de que rescendido o contracto de aforamento a Gibson, seja elle efectuado com outro, que melhores vantagens afferecer".

Na edição de 12 de fevereiro de 1866, dois dias depois, vem a resposta dos herdeiros: " ATTENÇÃO - Os herdeiros do fallecido Henrique Gibson, leram com sorpreza a informação que a Camara Municipal da cidade de Olinda, dera ao Exmo. Sr. Presidente da Província, sobre a qual S. Exc. indeferira o requerimento que fizeram sobre o pantano d'aquella cidade, e como dita informação e indeferimento fôra publicado no Diário de Pernambuco, de 10 do corrente, é justo que os mesmos herdeiros declarem que aquella informação é inexacta por isso que desde que o pantano fôra aforado aquelle falecido teem sido pagos os foros annualmente adiantados, tanto que o procurador daquella Camara os recebeu até Outubro do corrente anno, como tudo prova dos recibos que se acham em poder do testamenteiro".

Em 1904, o engenheiro Sr. José Antonio de Almeida Pernambuco (Dr. Pernambuco), adquire as terras do Forno da Cal e vários sítios encravados ou adjacentes. Foi ele o responsável pela construção do Matadouro de Peixinhos, iniciada em 1874 e, concluída, em 1919. Sua intenção, com a aquisição dessas terras, era devido à necessidade de ampliar a atividade desse empreendimento.

De acordo com o Diário de Pernambuco (1972a), o Dr. Pernambuco era “um pacificador interesseiro” que pretendia, junto à Câmara, o aforamento das terras perdidas por Henry Gibson.

Para tanto, ele indenizou os herdeiros do inglês pelas benfeitorias realizadas nas terras – o engenho e a fábrica de cal, obtendo-as assim também por aforamento. Portanto, em 26 de janeiro de 1905, consolida-se tal transação quando foi lavrado o termo de aforamento das terras do domínio de Olinda, em favor do engenheiro que, como Henry Gibson, também fez promessas à Câmara.

Com a morte de Henry, a propriedade “Forno da Cal”, foi herdada por Francis, seu filho. Minha avó Beatriz fazia questão de frisar que o “Forno da Cal” tinha sido de seu pai e nossa prima Zenaide Jacques Carneiro Leão (neta de Francis) me relatou que na demolição dos antigos escritórios da empresa, um testamento de Francis teria sido encontrado tardiamente e que se bem lembro, ela afirmou ter chegado a ver este documento.


O novo arrendatario - o Dr. José Antonio de Almeida Pernambuco, era filho de Amália Rosa de Oliveira - irmã de Alexandrina, primo portanto de Francis.

Já o Engenho Beberibe, localizado no Município de Recife e que foi desmembrado do engenho Nossa Senhora d’Ajuda em épocas remotas e que não fazia parte do aforamento conseguido por Henry com a Municipalidade de Olinda, foi deixado por herança a pelo menos 02 herdeiros: Henry Oliver e Alfred.
Lembro-me de que na década de 1970 o Diário de Pernambuco noticiou em sua coluna “Há 100 anos”, que Henry Oliver tinha sido agraciado com o título de “Coronel da Guarda Nacional” e seus amigos se dirigiram ao Engenho Beberibe, de sua propriedade e onde residia, para parabenizá-lo e como presente levaram uma espada que faria parte da indumentária do cargo.
O Casarão do Beberibe, sede da propriedade e que foi residencia de Henry Oliver, já não mais existe.
Pelo lado paterno sou descendente de Alfred e a geração de meu pai, até minha saída do Recife em 1975, recebia mensalmente pagamento por terrenos foreiros no Bairro Beberibe. Então com certeza Alfred foi beneficiado, por herança, de parte dos terrenos do Engenho Beberibe e justamente, por não fazer parte dos terrenos aforados em Olinda, não perdeu posteriormente propriedade para o primo, o Dr. Pernambuco.

Sabíamos também que a COMPESA (Companhia de Abastecimento de Água de Pernambuco) desapropriou uma área de cerca de 5 hectares no Bairro Beberibe, onde construíram um grande reservatório (a caixa d’água de Beberibe) e o numerário referente a indenização, teria sido depositado judicialmente em nome dos herdeiros de Henry Gibson. Não sei se o Henry Gibson informado era o pai ou o filho - Henry Oliver. A quantia depositada (e que nunca foi reclamada) foi bem menor que o valor real do terreno e papai falava que eram tantos herdeiros a serem identificados e representados que não valia a pena o litígio. Isto prova que o Engenho Beberibe já era do Henry antes e independentemente do aforamento do Forno da Cal.

* Dois anos antes, em 1533, devido às ordens de Martim Afonso de Sousa, na capitania de São Vicente, foi fundado o engenho São Jorge, o primeiro engenho brasileiro.
Capela de Santa Ana do Engenho Fragoso

Localização: antigo Engenho Fragoso - Cidade Tabajara

Localizada na Base Rural de Olinda, na estrada que vai até Paulista, a capela é posterior à construção do engenho. A propriedade foi, provavelmente, um presente de Jerônimo de Albuquerque (cunhado do 1o. donatário de Pernambuco), à sua filha Joana de Albuquerque, na ocasião de seu casamento com Álvaro Fragoso, fidalgo de Portugal. Somente por volta do século XIX, a Igreja de Santa Ana é mencionada. No frontispício das atuais ruínas na igreja,está gravada a data de 1845, que sugere uma reforma naquele ano. No século XX, a propriedade perdeu totalmente seu caráter produtivo e a capela foi abandonada. Após reformas empreendidas no século XX, a igreja possuía portada de estilo neoclássico e frontão eclético. A capela manteve-se funcionando, mesmo de forma precária, até a venda do Engenho, em 1951. No local, foi construído um núcleo de casas populares: a Vila Cidade Tabajara. Os últimos resquícios do antigo engenho são as ruínas do antigo Forno da Cal e o que restou da capela, que conserva ainda os traços singelos, que marcam uma época.


O Forno da Cal transforma-se na FOSFORITA OLINDA S/A

E foi só em 1949 que se descobriu a imensa riqueza do Forno da Cal, com reservas de fósforo estimadas em mais de 100 milhões de toneladas e que irão, não só revolucionar a lavoura pernambucana, como também evitar as importações de adubos fosfatados, verdadeira sangria do nosso dinheiro”.

(Vol. IX dos Anais da Sociedade de Biologia de Pernambuco 1949).

O fosfato lá encontrado, pelas suas características, apresentava um magnífico rendimento para a aplicação na agricultura, sem necessitar de qualquer outro tratamento alem da trituração conveniente. Ou seja, o custo seria apenas da extração, salientando que a jazida aflora a superfície.

Outros técnicos também se manifestaram e na opinião do Dr. Olivero Leonardos – “um dos maiores achados minerais da década, comparável a dos depósitos de Manganês do Amapá registrados por Fritz Ackerman, e dos depósitos de Scheelita do Nordeste descobertos por Raimundo Preá e Loel Dantas.”

(Notas sobre o Forno de Cal – Prof. Paulo Duarte – Recife 1954)

Em palestra proferida no Recife, em 22 de Outubro de 1962, o Professor Dr. Júlio Alcindo de Oliveira - da Faculdade de Farmácia da UFPE, chamou a atenção para a importância econômica da formação geológica do Forno da Cal, “que mostrava pertencer - pelo menos em parte, à conhecida jazida da África do Norte, com grandes depósitos de fosfatos também há muito explorados comercialmente.” Revista Engenharia, Mineração e Metalurgia, Vol. XVI n. º 94 nov. /dez 1951 e Vol. XIX , n. º 112, de março de 1954.
Pena que nossa família não tenha insistido na propriedade ou não tenha continuado no ramo da industria do cimento.

1.  Na época de Jerônimo Albuquerque, o Engenho Nossa Senhora d’Ajuda ocupava todo este triangulo assinalado como“Terras de Yngenhos e das Faz.” O Rio que banha o Varadouro é o Rio Beberibe

2.  Lou Neves Baptista Rodrigues deixou um novo comentário sobre a sua postagem "ENGENHO NOSSA SENHORA DA AJUDA":


"A primeira vez que o açúcar foi fabricado no Brasil foi na feitoria de Cristóvão Jacques na Capitania de Itamaracá, segundo o Livro da Casa da Índia da Alfândega de Lisboa/PT que registra o recebimento de açúcar, em 1526, oriundo do engenho de açúcar de Pedro Capico localizado na Ilha de Itamaracá/PE.
Esse documento vem comprovar que a primeira fabrica de açúcar foi construída na Capitania de Itamaracá/PE, destruindo o que escreveu frei Gaspar da Madre de Deus e outros escritores, quando dizem que o açúcar brasileiro foi extraído primeiramente na Capitania de São Vicente. Na verdade a cana-de-açúcar só vem a ser plantada na Capitania de São Vicente quase 10 anos depois, quando foi firmado um contrato social, entre 1533 e 1534, entre Martim Afonso e seu irmão Pero Lopes de Souza, como se refere Dr. Freire Alemão, com João Vicente Veniste, Francisco Lobo e Vicente Gonçalves para a construção de 02 engenhos, sendo um em Itamaracá e outro em São Vicente (engenho São Jorge)."


Postado por Lou Neves Baptista Rodrigues no blog Família Gibson em 20 de março de 2015 14:25

Caso você queira contribuir com nosso trabalho, com outras informações, fotos ou documentos que possam enriquecer esta postagem, pedimos que entre em contato com gustavogibson@gmail.com  Todos agradecemos

2 comentários:

  1. A primeira vez que o açúcar foi fabricado no Brasil foi na feitoria de Cristóvão Jacques na Capitania de Itamaracá, segundo o Livro da Casa da Índia da Alfândega de Lisboa/PT que registra o recebimento de açúcar, em 1526, oriundo do engenho de açúcar de Pedro Capico localizado na Ilha de Itamaracá/PE.
    Esse documento vem comprovar que a primeira fabrica de açúcar foi construída na Capitania de Itamaracá/PE, destruindo o que escreveu frei Gaspar da Madre de Deus e outros escritores, quando dizem que o açúcar brasileiro foi extraído primeiramente na Capitania de São Vicente. Na verdade a cana-de-açúcar só vem a ser plantada na Capitania de São Vicente quase 10 anos depois, quando foi firmado um contrato social, entre 1533 e 1534, entre Martim Afonso e seu irmão Pero Lopes de Souza, como se refere Dr. Freire Alemão, com João Vicente Veniste, Francisco Lobo e Vicente Gonçalves para a construção de 02 engenhos, sendo um em Itamaracá e outro em São Vicente (engenho São Jorge).

    ResponderExcluir
  2. A primeira vez que o açúcar foi fabricado no Brasil foi na feitoria de Cristóvão Jacques na Capitania de Itamaracá, segundo o Livro da Casa da Índia da Alfândega de Lisboa/PT que registra o recebimento de açúcar, em 1526, oriundo do engenho de açúcar de Pedro Capico localizado na Ilha de Itamaracá/PE.
    Esse documento vem comprovar que a primeira fabrica de açúcar foi construída na Capitania de Itamaracá/PE, destruindo o que escreveu frei Gaspar da Madre de Deus e outros escritores, quando dizem que o açúcar brasileiro foi extraído primeiramente na Capitania de São Vicente. Na verdade a cana-de-açúcar só vem a ser plantada na Capitania de São Vicente quase 10 anos depois, quando foi firmado um contrato social, entre 1533 e 1534, entre Martim Afonso e seu irmão Pero Lopes de Souza, como se refere Dr. Freire Alemão, com João Vicente Veniste, Francisco Lobo e Vicente Gonçalves para a construção de 02 engenhos, sendo um em Itamaracá e outro em São Vicente (engenho São Jorge).

    ResponderExcluir

Ocorreu um erro neste gadget